Beverly Hills Cop
Admito que tenho um gosto especial por filmes da década de
oitenta. Não escondo que objetivamente, como obras cinematográficas, grande
parte dos meus favoritos pouco ou nada valem. Ninjas, zombies, slashers, são “guilty
pleasures”, amores antigos que eu vejo com nostalgia de um tempo mais inocente
onde olhava maravilhado para o ecrã e não me preocupava com a qualidade das representações,
os planos do realizador ou a qualidade do argumento. Talvez, paradoxalmente,
fosse aí que senti mais intensamente a verdadeira paixão pelo cinema, o fascínio
pela sua magia que a idade de certa forma me tirou, fazendo-me encarar a 7ª
arte com um olho por vezes demasiado critico.
Mas aqui, não exagero quando afirmo que estamos perante uma
obra prima do cinema. Falo claro, dentro do seu género, mas, como o tempo
provou, é às vezes mais difícil fazer um bom filme de entretenimento puro do
que se pode pensar. É fácil imaginar que bastam umas piadas, uns tiros e está
feito um êxito. Mas, mesmo que o público de hoje em dia seja pouco exigente, o
grande teste é o tempo e aqui temos o grande trunfo de “Beverly Hills Cop”.
Um filme que se mantém fresco e em que nenhum elemento
envelheceu. As piadas funcionam como na sua estreia em 1984. Isto porque o
humor é baseado nas interações das personagens, no timing dos atores e na química
do elenco. E que elenco! Cada papel foi interpretado na perfeição. O filme é
todo de Eddie Murphy, obviamente. Um Eddie com fome de sucesso, jovem, em forma
e no topo do seu jogo. Murphy cria Axel Foley, dá-lhe um carisma próprio, uma
personalidade cativante e consegue compor uma personagem que ficou na história
do cinema. Axel é um tipo de gargalhada fácil, que faz partidas, mas sempre de
forma inocente, quase infantil e mente, mas sempre com um sorriso nos lábios
que o torna irresistível. No fim do filme ele mudou as outras personagens e
tornou-se seu amigo e nosso também.
Mas todos aqui brilham. Até Serge, o excêntrico empregado da
galeria de arte, um papel com duas cenas e algumas linhas de dialogo fica na
retina, de tal forma que voltou a aparecer na sequela. E que dizer do “Inspector
Todd”, o chefe de Axel em Detroit, o homem que praticamente criou a figura do
chefe do policia rebelde dos anos 80! Não esquecendo os dois vilões, Steven Berkoff
como o educado e elegante Victor Maitland e Jonathan Banks (de Breaking Bad)
como o seu capanga ameaçador!
Mas, mais perfeito ainda é o trio de John Ashton, Judge
Reinhold e Ronny Cox (Robocop). Judge como o inocente Billy Rosewood, e Ashton
e Cox como o “straight man” para as piadas de Murphy. Eles dão verdadeira vida
a estas personagens e atrevo-me a dizer que contribuem tanto como Murphy para o
sucesso do filme. É um elenco, um “gang” e não só Eddie. Acho que é o maior
elogio que lhes poderia dar.
A história é simples, mas nem por isso fraca. O argumento
tem uma trama superficial, mas sem grandes falhas. Não é um filme para pensar
muito. Tem um ritmo perfeito onde nenhum momento é desperdiçado e a ação nunca
diminui. Todas as cenas avançam a história e constroem as personagens. As
relações entre as personagens evoluem de forma realista e há um arco belissimamente
executado. No final acreditamos que estes homens se tornaram amigos, nada
parece forçado e as personagens evoluíram. Por vezes não vemos algo tão bem planeado
em “chamados” filmes sérios.
Também a música merece reparo. A típica banda sonora dos
anos oitenta, que fica no ouvido e é ideal para o estilo do filme.
Na verdade, custa-me encontrar algo aqui que não funcione. É
uma obra divertidíssima, leve, com um elenco fantástico e uma personagem
inesquecível. Já não os fazem assim… infelizmente.


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