The Sopranos - S01E01 - "Pilot"





Não há como fugir. “The Sopranos” é uma das melhores séries de televisão de sempre. A escrita, representação e até a música. Foi como dizem os nossos amigos americanos, “lightning in a bottle”. Uma conjugação de gente talentosa, no tempo ideal, com meios e apoio do “estúdio”. A HBO sempre nos habituou a qualidade, mas este foi este realmente o seu “Magnum opus”.

Volto após estes anos à companhia de Tony Soprano. Estou mais velho, mais sábio e desejoso de saber o que essa sabedoria me fará encontrar que o “eu” mais jovem e inconsciente talvez tenha ignorado.

Aqui temos o piloto. E sim, é provavelmente um dos melhores pilotos de sempre. Estou a repetir-me, mas é que o nível de mestria aqui presente é realmente esmagador. Numa hora, David Chase consegue, como um pintor numa tela, esboçar as personagens que mais tarde vai desenvolver e dar-lhes desde logo uma complexidade e uma personalidade própria. Era de esperar isso com Tony Soprano, mas a sua família e até os seus “colegas” são já “pintados” a traços largos, mas com realismo e peso. Como “pessoas” e não as personagens de “cartão” que tantos outros escritores nos oferecem.

Neste piloto temos o primeiro retrato de Tony Soprano. Um mafioso, brutal, selvagem e um predador dos mais fracos. Não parece um tipo simpático e não o é. Quando o vemos atropelar e espancar um pobre coitado que lhe deve dinheiro, a reação é asco. Mas aí está o génio de Chase. A pouco e pouco, algo que obviamente será desenvolvido no decurso da série, vemos que Tony não é totalmente mau. Tony não gosta particularmente do que faz. Na verdade, ele parece nem gostar particularmente de si próprio ou da sua vida. O que o leva à depressão. O conflito entre um tipo duro e a sua fraqueza emocional é um dos grandes trunfos da série. Mas não acaba aqui. Tony tem sentimentos. Ele tenta ajudar um amigo a não perder o seu restaurante. Aqui ele não tem nada a ganhar. Fá-lo desinteressadamente. Isto torna-o humano. Tony não é um monstro. Talvez tivesse tido outro futuro. Talvez tenha sido isto que fizeram dele.

Quando vemos a forma como os filhos, perdidos no egoísmo adolescente o ignoram, e a esposa lhe diz que ele irá para o inferno quando Tony está prestes a descobrir se tem alguma doença mortal, começamos a perceber que algo está errado na sua vida. Quando membros da sua própria equipa e família já estão a fazer planos para quando ele ficar “desabilitado” percebemos por quem o pobre homem está rodeado. E quando no fim do episódio o seu tio, que Tony diz amar, está praticamente a planear o seu homicídio, bem que dizer?

E claro, a sua mãe. Uma mulher amarga, incapaz de um ato gentil ou de uma palavra de encorajamento.

Bom, é fácil compreender porque Tony está deprimido.

Atenção que Tony Soprano não é um coitadinho, um santo, vitima das circunstâncias. Tony é uma contradição. Parece amar a esposa, mas mente-lhe constantemente e engana-a com outra mulher. Gosta de patos na sua piscina, mas espanca e explora um jogador degenerado. Tony tem defeitos… como todos nós. Tony é uma pessoa. Comete erros, tem ódios, tem bom e mal dentro de si.

Também é de realçar, além da escrita a representação do saudoso James Gandolfini. A forma como ele está à vontade no papel desde a primeira cena, as nuances da sua expressão e a dor no seu rosto em certos momentos, a frustração e tristeza absoluta, são tudo sinais de um ator extraordinário.

A série tem lugar no fim dos anos 90 e principio dos 00 e é notável a diferença para a sociedade atual naquilo que são relativamente poucos anos. Na cena em que em pleno dia Tony atropela e espanca um sujeito no meio da rua, é impossível não pensar como hoje, estaria passado uns minutos no youtube e claro a seguir na prisão. Tinha terminado aí a sua historia :D

Mas este era outro tempo. Mesmo assim, a série não envelheceu em nada mais e a experiência humana é sempre atual.

Vamos para o próximo episódio!   



O Melhor: A tareia, claro!




O Pior: Meadow! Eu fui adolescente e nunca fui tão dramático e irritante. Fui? Fui? Não, claro que não!

Música dos Créditos Finais: "The Beast in Me" Nick Lowe



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