The Sinner - Season 02
A segunda época de “The Sinner”, disponível na Netflix, está
no precipício, olha o abismo, mas não dá o passo em frente… infelizmente. É mesmo
assim uma das melhores produções presentes na plataforma de streaming. Uma
história sólida, com personagens complexas que examina a psicologia humana,
levanta várias questões, todavia acaba por não se deter em nenhuma. Explora
questões de psicologia particularmente interessantes e até filosóficas, no
entanto falta-lhe coragem para ir além da superficialidade, provavelmente numa
tentativa, condenada ao fracasso, de apelar às massas. Desesperada porque o
ritmo da “ação” é glacial, o tema e complexidade do enredo exige intelecto e
como tal, nada aqui existe que capture a atenção do público ruminante.
É desde logo imperativo mencionar a formidável atuação de
Bill Pullman como Harry Ambrose, um polícia que volta à terra da sua infância
para auxiliar uma agente inexperiente num duplo homicídio cometido por um rapaz
de 11 anos, sem aparente motivo. Ambrose sofre de várias neuroses e recalcamentos
devido a uma infância perturbadora ao cuidado de uma mãe doente mental. A sua
luta com a culpa e o seu conflito entre o amor por um progenitor e o
ressentimento pela sua inabilidade de cumprir a sua função de guardião da “cria”
é um dos pontos altos da trama. Ambrose, anos antes atuou à luz do instinto de
preservação e sobrevivência, incutido pela natureza em todos nós, mas os seus
sentimentos continuam a atormentá-lo numa culpa que na verdade é inútil, como a
culpa sempre é. Atuar, ou não atuar! Ex-post, é sintoma de fragilidade e de uma
personalidade fragmentada questionar a ação. Há alguma influência da “sombra”
de Jung na composição da personagem de Ambrose. O arco da sua personagem destina-se
à sua aceitação da sombra, o subconsciente, o feio, horrendo, que reprimimos em
nós. Até onde somos capazes de a olhar de frente e incorporá-la no nosso
consciente? É um ato heroico aceitar que não somos virtuosos, que odiamos e desprezamos.
Deixando de o reprimir, a sensação de liberdade é embriagante.
Outra dimensão fascinante do enredo lida com a criança,
Julian, que mais tarde se vem a provar ter nascido e sido criado num ambiente “fechado”
semelhante a um culto. Entramos no território do “nascimento” contra o ambiente.
Qual a sua responsabilidade quando tudo o que conheceu foi o seu pequeno mundo,
todos os seus valores e conhecimentos vieram do grupo que o rodeia e aprisiona
e não de relações de alteridade na sociedade. É assustador o nível de controlo
e o poder que se tem sobre uma mente vazia, em branco, onde poderemos escrever
as páginas com a informação que desejarmos, sem qualquer interferência. Uma
sensação próxima do divino.
Os habitantes deste culto brilham pela sua ofensiva
incapacidade de pensar ou agir por conta própria. São um retrato fiel da psique
fraca e sedenta por submissão que este tipo de “sociedade fechada” seduz, numa
clara analogia também a movimentos políticos ou religiosos que apenas
beneficiam de uma capa mais ou menos esburacada de respeitabilidade,
“The Sinner” exemplifica como alguns se arrastam pela existência,
destruindo e conspurcando tudo à sua volta, procurando respostas em todos que
se disponham a oferecê-las, nunca encarando a causa da sua miséria, elas próprias.
Chegando à exaltação do odioso, usando um descendente como razão para viver,
ancora à realidade, não por amor à criança, mas por puro e hediondo egoísmo.
Não se trata uma obra simples, fácil, sendo contudo
indubitavelmente enriquecedora e digna de elogio.



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