A Ilha dos Cães
“A Ilha dos Cães”, ameaça. Ameaça ter algo a dizer, ameaça
significado e promete, nos minutos iniciais, tensão, dor e desafio.
Infelizmente, cão que ladra, não morde.
Tecnicamente é um bom esforço. Uma “bela” fotografia e uma
realização imaginativa dão-nos planos majestosos que tomam total partido de
inesquecíveis paisagens paradisíacas. A banda sonora também é digna de elogio,
com um “score” assombroso, que eleva o grau de intensidade nas cenas mais
opressivas.
Opressivo é um adjetivo que realmente se aplica a “A Ilha
dos Cães”. Dividido em duas épocas diferentes, ainda com um longo “flashback”
contado de permeio, há uma persistente atmosfera de pressão, de miséria, ódio e
sofrimento que é digna de nota.
Tudo isto é atingido usando um “realismo mágico”, através da
inserção de um surrealismo que por vezes roça o exagero, fruto de algumas
representações mais exageradas e cenas que se arrastam. O que é surpreendente,
visto que a fita tem uma curtíssima duração. É mesmo esse défice que impede
praticamente qualquer desenvolvimento das personagens ou mesmo da trama. Há
aqui um esqueleto de uma história, um esboço do que poderia ter sido, mas o que
há, e que deve ser avaliado, é uma pobreza de sentido e um final sensaborão.
Sem deixar de referir a total falta de subtileza ou elevação
em alguns dos simbolismos presentes. De apontar o negro “corrompido” e
pervertido pela fúria capitalista a que se “vendeu”, trocando a ilha “pura” e o
convívio dos “honestos” pescadores pela “empresa” vil da capital, e que a pouco
a pouco fica com a sua pele branca. Sim, o sujeito sofre de Vitiligo mas penso
que o significado dado aqui é facilmente percetível.
Na reta final temos uma deambulação histérica, com uma cena
de sexo gratuita, algo desconfortável (no capô do carro, Santo Deus) e ataques
de cães demónio, aos proletários colaboracionistas e à credibilidade de
qualquer obra, dita séria.



Comentários
Enviar um comentário